quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Sobre um adeus de quatro patas:

Uma parte de nossa família se foi. Nosso cachorro, nosso maior companheiro. Aceitar essa perda não é fácil, mas sempre teremos a memória do amor que ele nos deu. E amor de cachorro é o maior amor desse mundo.

"Há nove meses, eu e meu companheiro recebemos uma proposta inusitada. Fomos convidados a tomar conta de uma cachorrinha que havia sofrido bastante na vida. E aceitamos o convite mesmo sabendo de todas as adversidades a cerca da situação.

Assim, em um dia de fevereiro de 2019 a Bisteca chegou em nossa casa. 

Quando a vi pela primeira vez, me dei de cara com uma cachorrinha acanhada, um pouco arisca, não aceitava carinho, não brincava, o corpo coberto de pulgas. Um olho danificado e inflamado o outro mal enxergava. Meu companheiro deu o seu primeiro banho e dali em diante sabíamos que ela seria nossa filha.

Confesso que no início eu estava um pouco receoso. Eu sou um pouco contra mudanças. Eu já tinha um cachorro, uma rotina e achava que uma nova presença poderia mudar tudo. 

Ela não sabia fazer as necessidades em locais específicos e a casa amanhecia suja toda manhã. O rosto dela era diferente, marcado, severo. E eu ficava com um pouco de nervoso em me aproximar.

Até que me vi sozinho com ela pela primeira vez e me vi responsável pelos seus cuidados. Eu olhei para ela e percebi o quanto ela era inocente, o quanto ela era frágil e precisava de atenção. E quando eu entendi que aquele olhar escuro era um pedido silencioso por ajuda, tudo mudou.

A Bisteca foi uma cachorrinha muito meiga, que vivia balançando o rabinho, sempre amável, nunca fez mal a ninguém.

Aos poucos ela foi se soltando. Aos poucos foi aprendendo a fazer as suas necessidades no local específico (tudo bem que ela errava o local em quase 90% das vezes, mas ela se esforçava kkkk). E eu já nem me importava mais. Minha rotina era maravilhosa. E a minha ligação com a Bisteca mudou quando ela veio me receber na porta pela primeira vez, mesmo sem ter me escutado, só pelo cheiro.

O tempo foi passando, eu fui me apegando, fui ficando apaixonado por ela. Minha maior alegria foi tê-la levado uma vez em um parque para ela conhecer a grama. Lembro-me da primeira vez em que ela foi a um petshop pra tomar banho, voltou toda elegante, cheia de pedrinhas coloridas coladas na nuca. Apesar das marcas da vida, ela ficou muito bonita toda arrumada. Até mesmo quando colocamos uma roupinha para o frio.

Toda manhã éramos acordados bem cedo quando ela pulava na ponta da cama atrás de comida. Seu espirro era certeiro. E íamos lá, na maior satisfação, colocar sua comida. Ela rodava de felicidade. 

Seu rosto mudou, parecia que ela sempre sorria, parecia que ela havia esquecido de vez os maus tratos que sofreu ao longo de sua vida.


Agora, olhando para trás, eu gostaria muito de ter recebido um sinal de que o nosso tempo estava acabando.

Em um dia fatídico (30/10) saí para o trabalho e deixei a Bisteca e seu irmãozinho em casa com ventiladores. Não sei por que ela foi parar na cozinha, onde é o local mais quente, e lá permaneceu até meu companheiro chegar. Sua temperatura aumentou drasticamente, ela já não andava, já não bebia água. Meu companheiro correu com ela para o ar condicionado e me ligou, dando a pior notícia possível: a bisteca está morrendo. Saí do trabalho no meio do expediente e corri pra casa.

Cheguei lá a ponto de vê-la recuperando as forças e energias, acreditei que ela iria melhorar, mas ela cerrava os dentes e não respirava, começou a ficar agitada. Ficamos com a faca e o queijo nas mãos: Ou tentaríamos reanimar ela em casa mesmo, ou a levaríamos para o veterinário onde ela seria mais bem assistida. Então decidimos o veterinário.

A Bisteca chegou lá com a temperatura elevada. Foi uma correria para ajudá-la. E por um momento achei que tudo ficaria bem. Fui até em casa ver como seu irmãozinho havia ficado e eis que recebi uma notícia que abalou o meu mundo: A Bisteca se foi!

Achei injusto, olhei para a minha roupa e vi seus pêlos em mim, olhei para o chão de casa e lá estavam suas coisas, seu cheiro. NÃO PODIA SER VERDADE.

Corri o mais rápido que eu pude em direção à clínica. E lá estava ela, nossa Bisteca, deitada em cima de uma maca fria, sem vida. 

Aproximei-me e agarrei seu corpinho... Desesperei-me... Seu único olho ainda estava aberto, mas agora em completa escuridão. Pedi para ela voltar, queria que fosse que nem os filmes, eu queria que ela me sentisse ali e voltasse para mim. Sussurrei em seu ouvido que ainda tínhamos muitos planos para fazer juntos... Mas ela não me ouviu... Ela não se mexeu... Ela não voltou...

Fiquei sem chão e ainda estou. Escrevo este texto em forma de homenagem para que a memória dela fique sempre presente e para que outras pessoas saibam que existiu uma cachorrinha muito inocente que, mesmo tendo sofrido, ainda nos ensinou o significado do amor. Pensei que eu tinha tanta coisa pra ensinar a ela, mas hoje eu me surpreendo, pois percebi que ela quem me ensinou.

Foram nove meses aturando as mordidas do seu irmão Rick, foram nove meses mordendo quem colocasse as mãos em sua cabeça, nove meses latindo para os fogos, nove meses vindo nos acordar atrás de comida... Agora será uma vida inteira sentindo sua falta... Meses e mais meses olhando para o seu cantinho vazio... Uma vida inteira sem te escutar, sem te sentir e sem ser recebido por você. Sinto sua falta, se eu pudesse fazer um pedido, eu gostaria de ter mais um tempinho com você.

Muito obrigado pela sua companhia e por ter sido essa nossa amiga leal. Espero que agora você esteja em algum lugar bem bonito, espero que você tenha recuperado sua visão e que esteja vendo o quanto sentimos a sua falta. Desculpe-me pela sua vida sofrida, te resgatamos tarde demais. Espero que você tenha sido feliz aqui. Você nos fez muito feliz. Você está tendo o seu merecido descanso. Fique com Deus minha linda, agora é finalmente chegada a hora de você brilhar, minha estrelinha!"


Até breve...



*     *     *




*     *     *


Quatro Patas de Amor
By Marcus Eni

Me perdoe o meu desespero
Por sentir falta de você
Comi o controle da TV
E baguncei seu quarto inteiro
Mesmo sabendo que você
Iria ficar pra morrer
E quando eu fugi de casa
Queria só me aventurar
Sabia que ia me encontrar
E me desculpe se eu não me contenho
Ao ver você chegar
Eu não paro de pular
E sobre o lixo todo revirado
É impossível te negar
Comida boa é a de lá
E sobre eu não ser muito fã de gatos
É que eles amam tirar sarro
Por eu não pegar meu rabo
Vou ficar bem pertinho
Mesmo que queira ficar só
Vou rolar, deitar
Fazer de tudo
Pra você ficar melhor
Vê se não se esquece de mim
Porque tudo o que eu tenho é você
Sempre que você vai pro trabalho
Eu morro de medo de não mais te ver!
A casa ganhou um bebêzinho
Entendo a preocupação
Prometo só ficar no chão
Aquele era o meu cantinho
Não vou ficar ali mais não
Vê se não fica bravo não
Você quase não brinca mais comigo
Entendo que anda ocupado
Me desculpe ser tão chato
Mas algo mais ta mexendo comigo
Parece não que não tem espaço
Mais para o seu velho amigo
Você me deixando aqui
Eu não vou saber voltar
A noite faz frio e eu
Me acostumei a ter um lar
Você é minha família
E agora quer me deixar
Me desculpe por comer
As almofadas do sofá
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