terça-feira, 24 de junho de 2025

Leitura de Junho.3:

 

Saboroso Cadáver
by Agustina Bazterrica

Ler Saboroso Cadáver é como encarar um espelho deformado da nossa própria realidade — grotesco, incômodo, mas impossível de ignorar. É uma distopia, sim, mas tão próxima do que vivemos que chega a ser desconfortável chamá-la de ficção. Agustina Bazterrica cria um mundo onde, após um vírus tornar a carne animal imprópria para consumo, a humanidade toma uma decisão brutal: institucionaliza o consumo de carne humana.

Nesse cenário perturbador, seguimos a rotina de Marcos, um funcionário de alto escalão em um frigorífico especializado no abate de “carne especial” — como os humanos criados e abatidos para alimentação passam a ser chamados. Marcos carrega suas próprias dores, especialmente a perda recente do filho e a internação de sua esposa em um hospital psiquiátrico, o que o torna um personagem apático, à deriva, e ao mesmo tempo perigoso, porque representa o que há de mais humano em meio ao inumano.

O ponto de virada da narrativa acontece quando ele recebe de presente uma mulher viva, criada para abate. A partir daí, o desconforto cresce, página após página. O leitor é forçado a observar a erosão completa de qualquer traço de ética, enquanto Marcos tenta justificar suas ações e navegar por esse mundo que já aboliu os limites do aceitável.

O que mais choca em Saboroso Cadáver não são apenas as cenas cruas ou a premissa absurda — mas o fato de que tudo faz sentido dentro daquela lógica. E esse é o verdadeiro golpe: perceber que, com pequenas adaptações, o sistema descrito por Bazterrica não está tão distante do nosso. Troque os humanos por animais, troque o abate por exploração sistemática, e o horror continua, apenas com outra embalagem. O livro obriga o leitor a se perguntar até onde vai o apetite humano por poder, controle e consumo.

A escrita é seca, direta, sem floreios. Não há espaço para poesia diante do horror banalizado. Por isso, mesmo sendo uma leitura que fere, ela flui — rápida, inquietante, quase como um soco que a gente só percebe completamente depois que já caiu. Em poucas páginas, somos levados a confrontar o que significa ser humano, consumir, obedecer e, acima de tudo, se anestesiar diante da barbárie.

Saboroso Cadáver é um livro que te suga para dentro do pesadelo e depois te devolve ao mundo real — mas com os olhos mais abertos. Não é para todos, mas talvez devesse ser.

Nota: ★★★⭑⭑

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Leitura de Junho.2:

 

A Contadora
by Freida McFadden

Conheci Freida McFadden depois de ouvir muita gente comentar sobre a série “a empregada”. Resolvi ler o primeiro volume da série e gostei bastante. Foi uma leitura leve, com personagens interessantes e uma reviravolta que me pegou de surpresa. O segundo livro manteve a qualidade, mas comecei a sentir que a fórmula estava se repetindo um pouco. Já no terceiro, a história ficou morna, sem aquele “uau” que a gente espera de um bom thriller. E aqui temos “A contadora”.

Neste livro, conhecemos Dawn Schiff, uma contadora excêntrica, socialmente desajeitada e apaixonada por tartarugas, que trabalha na Vixed, uma empresa de suplementos. A rotina dela é quase cronometrada. Mas quando Dawn desaparece de repente, quem começa a desconfiar é sua colega de trabalho, a atraente e bem-sucedida Natalie Farrell. 

A situação fica ainda mais estranha quando Natalie encontra uma ligação anônima gravada na mesa de Dawn. A partir daí, ela começa a investigar o que está por trás desse sumiço, mergulhando em um jogo perigoso e cheio de segredos.

Sendo bem sincero, o início da leitura não me empolgou, achei que a história demorou a engrenar. Mas depois da metade o ritmo mudou, pois sempre me divirto nas partes investigativas dessas histórias.

O problema é que, ao longo do livro, a autora recorre novamente aos mesmos recursos de sempre. Quem já leu outras obras dela vai perceber isso. A estrutura se repete, os truques também, e o tão esperado plot twist simplesmente não convence. Parece que faltou inovação. E quando chega o final, tudo se resolve tão rápido que fica uma sensação de que algumas situações e personagens mereciam um desfecho mais elaborado.

A Contadora tinha potencial para ser melhor. Tem momentos bons, algumas tensões bem construídas, mas acaba com um final sem graça. Pode funcionar como uma boa distração para quem nunca leu nada da autora, mas para quem já conhece o estilo da Freida, é bem possível que este livro pareça apenas uma versão mais apagada do que ela já entregou antes.

Nota: ★★⭑⭑⭑



quarta-feira, 4 de junho de 2025

Leitura de Junho:

 

Pedra Papel Tesoura
by Alice Feeney

Li Pedra, Papel, Tesoura com bastante expectativa já que é um livro bem comentado nas redes sociais. E o livro realmente não decepciona. É um thriller que prende, mas sem forçar a barra.

A trama acompanha Adam e Amelia, um casal que tenta salvar o casamento indo passar uns dias numa capela isolada na Escócia, após Amelia vencer um misterioso concurso em seu local de trabalho. Só que, claro, o clima romântico dura pouco. Aos poucos, a gente percebe que essa viagem esconde muitos segredos e mágoas mal resolvidas.

Os dois personagens são muito bem construídos: Adam é um cara fechado, difícil de lidar, e Amelia parece aquela pessoa que tenta manter tudo em pé, mas está cheia de inseguranças. Eles são falhos, reais, e isso deixa a relação entre eles complexa e interessante - e desconfortável, às vezes.

As revelações no final podem não causar aquele choque de cair da cadeira…  Mas são bem amarradas, fazem sentido dentro da história, e, mesmo sendo previsível, deixa aquele gostinho de satisfação, como se tudo estivesse no lugar certo.

O que mais me pegou foi como o livro mostra os pequenos detalhes que fazem (ou destroem) um relacionamento. Fiquei pensando: será que eles realmente se amavam ou só estavam presos um ao outro, meio obcecados, incapazes de se libertar desse vínculo tóxico entre eles?

Se tem um ponto fraco, na minha opinião, é a ambientação. Senti falta de um pouco mais de vida nas descrições dos lugares. A ambientação na Escócia tinha tudo para ser mais marcante… mas ficou meio apagada. Aquele cenário frio e isolado poderia ter intensificado ainda mais a atmosfera da história.

No geral, é um livro que recomendo. É bem escrito, envolvente e ainda faz a gente refletir sobre os limites entre amor e obsessão.

Nota: ★★★⭑⭑

sábado, 24 de maio de 2025

Leitura de Maio:

O Massacre da Família Hope
by Riley Sager

"O Massacre da Família Hope" é um thriller que impressiona menos pelos grandes choques e mais pela maneira como constrói, com paciência e precisão, uma atmosfera opressiva que acompanha o leitor do começo ao fim. O que mais chama a atenção não é tanto a violência do massacre em si, mas o cenário onde ele aconteceu: a mansão isolada, à beira de um penhasco prestes a ruir, quase um personagem à parte na narrativa. A fragilidade física da casa, com suas rachaduras, rangidos e a constante ameaça do abismo, reflete perfeitamente o desgaste emocional e moral que ronda a família Hope.

A escrita é direta, objetiva, sem recorrer a exageros ou descrições excessivamente gráficas, o que torna a leitura fluida e ao mesmo tempo incômoda, no bom sentido — como se estivéssemos sempre pisando em chão instável, assim como os personagens. As descrições da mansão são particularmente bem feitas: não são longas, mas muito eficazes em transmitir a sensação de decadência iminente e isolamento, que acaba sendo o tom dominante do livro.

A estrutura da narrativa, intercalando passado e presente, ajuda a construir a tensão aos poucos, sem pressa, mas também sem enrolação. Cada capítulo adiciona uma peça ao quebra-cabeça, e mesmo quando a trama parece se encaminhar para uma conclusão previsível, a força da ambientação mantém o interesse.

O final não aposta em um grande choque ou reviravolta, mas em uma resolução coerente com tudo que foi apresentado. Acho que única coisa que me incomodou, e isso é uma opinião pessoal, foi a quantidade de reviravoltas que o final nos apresentou. Muitos personagens revelando ser aquilo que a gente não imaginava.

Em resumo, "O Massacre da Família Hope" é uma leitura envolvente, especialmente para quem aprecia histórias em que o cenário pesa tanto quanto a trama. A mansão, à beira do colapso, é uma metáfora poderosa para os segredos e fragilidades humanas que o livro explora.

Nota: ★★★★⭑

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Leitura de Abril:

 

Desenhos Ocultos
by Jason Rekulak

Desenhos Ocultos me chamou a atenção logo de cara. A capa chamativa, as ilustrações misteriosas, uma sinopse que prometia um bom suspense e enigmas sobrenaturais; tudo isso me deixou bastante curioso. Admito que fui com expectativas altas para essa leitura.

A história gira em torno da Mallory Quinn, uma jovem tentando reconstruir a vida depois de passar por problemas sérios com drogas. Ela arruma um trabalho como babá do pequeno Teddy, em uma casa que, à primeira vista, parece comum. Mas, com o tempo, Mallory começa a perceber algo estranho: os desenhos que Teddy faz vão ficando cada vez mais perturbadores, como se escondessem pistas de algo sombrio envolvendo a casa e seu passado.

Confesso que, apesar da premissa interessante, a leitura acabou não funcionando pra mim. A trama seguiu um caminho muito previsível, sem grandes surpresas ou momentos de verdadeiro impacto. A atmosfera, que eu esperava que fosse densa e envolvente, acabou se perdendo no meio de clichês típicos de histórias sobre fantasmas.

Depois de um tempo, ler o livro virou quase uma tarefa. Em vez de criar mais suspense, as "revelações" só me fizeram ter certeza do que já estava imaginando sobre o final.

No fim, a sensação que ficou foi a mesma de quando a gente escolhe, meio sem pensar, um filme de terror qualquer no streaming: começa empolgado, esperando por bons sustos, mas termina com aquela história esquecível que some da cabeça assim que os créditos aparecem.

Desenhos Ocultos tinha potencial, sem dúvida. Mas acabou entregando menos do que prometia, preso em uma narrativa que não arrisca e se apoia demais em fórmulas batidas.

Nota: ★⭑⭑⭑⭑


sexta-feira, 28 de março de 2025

Leitura de Março.2:

 

Suicidas
by Raphael Montes

Quando peguei Suicidas para ler, achei que o começo fosse me fazer desistir. A história demora um pouco para engrenar, e eu quase deixei de lado — mas, quando finalmente peguei no tranco, não consegui mais parar. Em três dias, já tinha virado a última página, misturando fascínio com um certo desconforto.  

O livro tem uma narrativa que te arrasta, mesmo quando você quase quer se soltar dela. Tem horas que a trama parece se repetir ou andar em círculos, mas, de repente, algo acontece e você fica grudado de novo, querendo saber como tudo vai acabar. Só que, cá entre nós, não foi tão difícil adivinhar alguns dos segredos antes da hora. Já na metade, eu tinha desconfiado de certas reviravoltas, e isso me deixou com um pé atrás na hora do desfecho.  

Mas o que realmente me marcou foram as cenas que me fizeram torcer o rosto de tão intensas. Tem momentos que você quase quer fechar o livro e respirar fundo — mas aí vem aquela coceira de saber o que vem depois, e você segue em frente, mesmo com o estômago embrulhado. Raphael Montes não facilita: ele joga na nossa cara um suspense pesado, com críticas sociais afiadas e um terror psicológico que fica na cabeça.  

Se você curte histórias que mexem com os nervos e não tem medo de se sentir um pouco mal no processo, Suicidas pode ser sua próxima leitura. Só aviso: não é pra qualquer um... É uma leitura bem pesada. Tem gente que vai odiar, tem gente que vai amar, e tem gente (como eu) que vai ficar ali no meio, pensando “não sei se gostei, mas com certeza não vou esquecer tão cedo”.

Nota: ★★★⭑⭑

quinta-feira, 6 de março de 2025

Leitura de Março:

 

Verity
by Colleen Hoover

Verity, da Colleen Hoover, é um daqueles livros que a gente começa a ler e simplesmente não consegue parar. Sério, ele te agarra desde as primeiras páginas e só solta no final! A narrativa é tão envolvente que você fica grudado, querendo saber o que vai acontecer a cada capítulo.

A história gira em torno da Lowen Ashleigh, uma escritora que é chamada para terminar uma série de livros de Verity Crawford, uma autora super famosa que, depois de um acidente, não pode mais escrever. Quando Lowen se muda para a casa da família Crawford para mergulhar nos manuscritos de Verity, ela acaba encontrando uma autobiografia secreta e perturbadora, cheia de segredos que vão te deixar de queixo caído.

O que mais me conquistou em Verity foi que a linha entre o certo e o errado, a verdade e a mentira, é explorada de um jeito que te deixa com aquele frio na espinha. A escrita dela é emocional e fluida, o que torna a leitura ainda mais viciante.

Ah, e o final? É daqueles que te deixa com um nó na garganta e um monte de perguntas na cabeça. A ambiguidade que a Hoover deixa de propósito é genial e te faz refletir e questionar tudo o que você leu. Depois que acabei o livro, fiquei um bom tempo pensando na história.

Resumindo, Verity é um livro cheio de suspense, emoção e reviravoltas que você nunca vai ver chegando. Se você curte livros que te deixam com aquela sensação de "caramba, preciso conversar sobre isso com alguém!", esse é pra você. Recomendo!

Nota: ★★★★⭑

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